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São Paulo, 24 de fevereiro de 2006.
Para mim, períodos como este, de Carnaval, em que a
cidade fica meio vazia, convidam à solidão e introspecção. Não me incomoda
estar sozinho.
Enquanto todos se aprontam para as viagens nesse feriadão, fui caminhar bem
cedinho no Parque Ibirapuera, e a boa sorte me abençoou: presenciei um pequeno
milagre.
Uma flor da paineira desprendeu-se da árvore, rodopiou
e caiu sobre uma trepadeira seca, e lá ficou, ainda mais bela e
realçada, como se alguém a houvesse ali colocado para enfeite.
Tudo isso ante meus olhos encantados pela beleza on-line da cena evanescente,
que finda antes de se poder pensar a respeito: já está a florzinha instalada em
sua nova casa como se ali morasse há tempos.
A beleza das coisas enquanto elas estão acontecendo é
algo mágico, que nos liberta da prisão da relação dual entre o "eu" e "a
Natureza", ou "o Universo".
O cantor apaixonado pela Vida não contém seu espanto
perante o milagre da Criação, como demonstrou Cat Stevens (atual Joseph Islan)
em "Morning Has Broken" :
Morning has broken, like the first morning
Blackbird has spoken, like the first bird.
Praise for the singing, praise for the morning
Praise for the springing fresh from the world!
Caetano Veloso, em dia inspirado declarou:
As coisas têm um momento em que elas são, e eu
quero pegar o É das coisas.
Certamente há algo mágico no momento atual, se o
encararmos como o palco onde a Criação está acontecendo exatamente agora, com
nossos olhos testemunhando ISSO, que só não é um espantoso
milagre porque nos acostumamos a ele, matando seu viço e frescor.
Notaram que a coisa com a qual nos acostumamos realmente perde, a nossos
olhos, seu encanto, vigor e beleza?
Recordemo-nos dos lindos versos de Fernando Pessoa:
Vale sempre mais a pena ver uma coisa pela
primeira vez do que conhecê-la
porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez
e nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar.
Se estamos atentos ao momento presente, até um caminho pedregoso é inspiração
para uma poesia maravilhosa, como o fez Drummond em "No meio do caminho":
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Olhar tudo como se fosse NOVO tem sido uma fonte
inesgotável de inspiração para os grandes poetas, como demonstra a bela canção
"Folhas Caídas", de Nélson Cavaquinho e César Brasil. Vejamos um trecho de sua
letra:
Estás vendo essa árvore enjeitar folhas que
envelhecem?
Caídas no chão até quando o vento quiser!
Sei qual é o destino dessas folhas caídas:
Vão rolar pelas ruas, não serão protegidas!
O poeta prestou atenção em nada menos do que ...
FOLHAS CAÍDAS! Quantos de nós dedicam uma mínima parte de nossos dias, que
seja, a observar aquilo que não tem utilidade para nossos planos ou
interesses?
Talvez a música acima seja muito antiga e quase
desconhecida ( em que pese ser um samba muito bonito ), mas, em tempos um pouco
menos distantes, o mesmo Nélson Cavaquinho fez, com Guilherme de
Brito, o famoso "Folhas secas" , um samba maravilhoso, que fez muito
sucesso, sendo gravado por vários cantores importantes, inclusive Elis Regina:
Quando piso em folhas secas
caídas de uma mangueira,
penso na minha escola
e nos poetas da minha Estação Primeira!
Nem sei quantas vezes
desci o morro cantanto
A luz do sol me queimando,
e assim vou me acabando...
Amanheceres. Pássaros cantando. Pedras. Folhas caídas. Folhas secas.
Vendo a Criação, vemos nosso lugar no mundo. O que nos diferencia de tudo isso,
nos faz sentir apartados da Natureza?
E porque tais perguntas nunca são feitas, e, se
feitas, nunca temos energia para encontrar uma resposta não maquiada pela nossa
cultura humana acumulada?
Acontece que nossa cultura é dirigida não a SER, mas a
fazer, ter, acumular. Por
isso, somos orientados às coisas utilitárias, e tudo se transforma num meio
para um fim, o qual é totalmente autocentrado.
Isso se aplica também aos relacionamentos interpessoais, que são
avaliados em termos de minha realização pessoal, dos meus sonhos
e aspirações, dos meus valores e interesses.
Nessa visão, os outros são importantes apenas enquanto se encaixem
como peças do complicado e eternamente não resolvido quebra-cabeça da nossa
satisfação permanente.
Mesmo que nossos objetivos sejam espirituais, não
deixam de ser metas distantes a serem atingidas no decurso do tempo. Queremos a
cura, a salvação, a bem-aventurança, e não nos passa pela cabeça
que nossas chagas e tormentos possam ter um papel nisso.
Alguns religiosos, porém, perceberam o quão importante
é o sofrimento na vida humana. Vou citar um trecho tirado do livro "Mananciais
no Deserto", de Lettie Cowman, que contém uma sabedoria incomum.
Vejam que beleza:
George Matheson, o bem conhecido pregador cego
(evangélico) da Escócia, disse certa vez:
"Meu Deus, eu nunca te agradeci por meus espinhos. Muitas vezes te agradeci por
minhas rosas, mas nem uma única vez por meus espinhos. Sempre sonhei com um
mundo onde obterei a compensação pela minha cruz, mas nunca pensei em minha
cruz como sendo, ela mesma, uma glória presente."
"Ensina-me a glória da minha cruz, ensina-me o
valor dos meus espinhos. Mostra-me que é pela vereda da dor que tenho subido a
ti. Mostra-me que as lágrimas formam em minha vida um arco-íris".
Notem que, nessa visão libertadora, o infortúnio
não é algo a ser amaldiçoado ou mesmo recusado, ao contrário: de algum modo
misterioso, ele é visto como uma glória presente, quando nos apercebemos
que existe sofrimento, mas não existe o sofredor como entidade psicológica.
Assim, o momento presente já é a bem-aventurança.
Claro está que o sábio pregador não se refere a um ego masoquista curtindo o
"prazer" do sofrimento; trata-se do esvaziamento do "si-mesmo", o que permite
testemunhar a existência do sofrimento e da dor, mas não identifica
mais "aquele que sofre", como unidade pessoal separada que resiste aos fatos
da vida.
Viver a existência sem o sentido do eu individual
é o mistério dos mistérios, que não pode ser desejado nem perseguido e, no
entanto, sem isso a nossa vida psicológica é velha, previsível e sem
graça.
Crônica especial de Carnaval
- JC
Cavalcanti - 24/02/2006
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